Há expressões que atravessam o tempo e se instalam no nosso vocabulário como verdades silenciosas. Uma delas, repetida em rodas de conversa, sempre me causou incômodo: “não ganha nem para síndico”. Durante muitos anos, essa frase passou despercebida, dita de forma despretensiosa, quase como uma brincadeira. Mas, como toda expressão popular, ela carrega um significado profundo e, neste caso, injusto.
Recentemente, conversando com meu amigo Roberto Moura, síndico morador e hoje síndico profissional de destaque, ele me contou como essa frase o incomodava. Propôs, portanto, um desafio: escrever algo sobre o tema. Percebi, naquele momento, que não se tratava apenas de uma questão de palavras, mas de reconhecimento. Afinal, por que associar o síndico à ideia de fracasso, se o exercício da sindicatura é, na verdade, um dos maiores desafios de liderança e convivência humana?
Tive a oportunidade de abordar esse tema em meu discurso na Sessão Solene realizada em 3 de novembro de 2025, na Assembleia Legislativa de São Paulo, em homenagem ao Dia do Síndico. Antes da sessão, nos bastidores, comentei com o deputado estadual Altair Moraes que essa expressão precisava ser revista. Disse-lhe que o síndico e o político têm muito em comum: ambos dependem do voto, da confiança e da vontade coletiva. A diferença é que o político pode percorrer cidades, estados e até o país em busca de eleitores, enquanto o síndico tem um universo restrito, o seu condomínio, aquele mesmo grupo de pessoas que convive de perto com ele, que o observa todos os dias, que conhece suas virtudes, suas fraquezas, sua vida familiar e seus valores.
Enquanto o político constrói discursos para o público, o síndico é julgado pelas ações concretas do cotidiano: o portão que funciona; o vazamento que é resolvido; o conflito que é mediado; a transparência nas contas etc. O eleitor-condômino não se convence com promessas, ele vive o resultado das decisões. Ser síndico é estar exposto em tempo integral. É liderar sem gabinete, sem blindagem, sem palanque. É ser cobrado na garagem, no elevador e até na fila do mercado.
Por isso, proponho que mudemos a expressão. Em vez de dizer “não ganha nem para síndico”, que se diga: “Ele é tão bom que ganha para síndico do próprio prédio.” Porque ser eleito síndico do seu condomínio, por vizinhos que o conhecem no íntimo, que sabem
de suas questões morais, éticas e familiares, é talvez uma das maiores provas de confiança e credibilidade que alguém pode receber. O bom síndico precisa ter critério ético e moral, estabilidade emocional e familiar, e resistência para ser observado e cobrado todos os dias. É claro que existem maus síndicos, mas não é deles que desejo falar hoje.
O síndico é o gestor que administra o patrimônio e a convivência de dezenas, às vezes centenas de pessoas. Ele equilibra egos, expectativas e finanças. É o guardião do bom senso e o primeiro a ser lembrado quando algo dá errado. Mas, quando tudo funciona bem, reina o silêncio, o maior elogio que um síndico pode receber. É o paradoxo do silêncio: o bom trabalho do síndico é silencioso; o barulho surge quando as coisas vão mal.
Que essa mudança simbólica de linguagem traga também um novo olhar sobre o papel do síndico. Que deixemos de tratá-lo como piada e passemos a reconhecê-lo como o que realmente é: um líder comunitário, eleito democraticamente, responsável por harmonizar a vida em comum.
Em tempos em que confiança, moral e ética se tornaram bens escassos, ganhar para síndico do próprio prédio é, de fato, uma conquista de respeito, credibilidade e caráter.





